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Selic caiu: o que muda nos investimentos em renda fixa, ações, FIIs e fundos?
Especialistas apontam oportunidades e pontos de atenção em todas as classes de ativos
Após 45 dias movimentados desde sua última reunião, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) decidiu cortar em 0,25 ponto percentual a taxa Selic, que vai para 14,75% ao ano. Este era o movimento aguardado pela maioria dos agentes do mercado, que agora recomendam mudanças nas carteiras de investimento.
As estratégias mudam, mas não drasticamente. Nos títulos públicos, Tesouro Selic e Tesouro IPCA+ seguem como unanimidades, mas há oportunidades em prefixados. O mercado de fundos imobiliários de papel deve sofrer impactos pequenos, enquanto no mercado acionário é hora de equilibrar o portfólio entre ações defensivas e as de empresas ligadas à economia doméstica.
Confira as recomendações de especialistas para alocação nos principais instrumentos de investimento:
Títulos públicos
No Tesouro Direto, a recomendação de Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research é comprar os títulos pensando em levá-los até o vencimento: “o foco inicial do investidor deve estar no carrego; o ganho na marcação ao mercado é um bônus”.
Com os juros ainda altos, o Tesouro Selic segue recomendado, mas há espaço para os três principais títulos do Tesouro Direto: “uma alocação equilibrada entre Tesouro Selic, prefixados e IPCA+ pode ser uma estratégia mais adequada; quanto maior a participação do Tesouro Selic, menor a volatilidade do portfólio, mas também mais limitado tende a ser o seu potencial de retorno”, diz Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset.
Diante de um cenário recheado de incertezas, o Tesouro IPCA+ se consolida como uma aposta defensiva, especialmente em prazos mais longos, “oferecendo um carrego robusto e a garantia de um retorno real contratado, o que se torna ainda mais relevante em caso de aceleração inflacionária”, diz Sérgio Samuel dos Santos, economista e especialista em fundos e previdência do Sistema Ailos.
Por último, os prefixados: há uma janela de oportunidade aberta após o corte da Selic, segundo Lima, que avalia os papéis de prazos intermediários – cerca de três anos – como os mais adequados para capturar ganhos.
Crédito privado
O corte de juros alivia parcialmente as empresas emissoras de debêntures, CRIs e CRAs, mas ainda há desafios para o crédito corporativo. Gabriel Pereira, head de research da Blox, explica que o alívio na taxa básica tem um impacto direto nos preços dos papéis. Segundo ele, “o efeito sobre o crédito privado tende a ser duplo: compressão de spreads, já que a maior liquidez no sistema direciona capital para ativos que ofereçam prêmio sobre a taxa básica, e valorização de ativos indexados ao CDI com duration mais longa, que se beneficiam da redução da taxa de desconto”.
Cristiano Luersen, sócio da Wiser Investimentos, diz que “não é momento de ‘pegar tudo que paga mais’, é momento de escolher com precisão. Empresas com fluxo de caixa robusto, dívidas proporcionais ao seu tamanho — aquelas que conseguem pagar juros e amortizações sem apertar o cinto demais — e setores menos sensíveis à taxa de juros ganham prioridade”.
Setores defensivos, como infraestrutura, energia renovável e saneamento estão entre os recomendados por Luersen: “oferecem receitas mais estáveis e menos sensíveis ao ciclo econômico”. Como instrumento, ele aponta as debêntures incentivadas de infraestrutura de alta qualidade (ratings AA e AAA) como as “campeãs de audiência”.
Ações
O início do ciclo de corte de juros era amplamente esperado pelo mercado acionário. Mesmo assim, analistas dizem que a flexibilização monetária não deve ser motivo para grandes guinadas nos portfólios. As empresas geradoras de caixa e com baixa alavancagem continuam entre as preferidas, mas há espaço para adicionar, aos poucos, mais risco na carteira.
Além da Selic, o mercado internacional vem sendo amplamente responsável pela precificação da Bolsa brasileira. Com o barril do petróleo Brent cotado acima de US$ 100, ações ligadas a óleo e gás estão no radar dos especialistas. “Na Terra Investimentos, seguimos com preferência por Petrobras (PETR4) e Prio (PRIO3). Petrobras combina geração robusta de caixa e dividend yield elevado, enquanto Prio entrega crescimento e eficiência operacional”, diz Régis Chinchila, analista da casa.
Em utilities, que tem ações consideradas defensivas, a preferência da Planner está nos papéis da Sabesp (SBSP3) e Copel (CPLE6): vemos valor nas ações da Sabesp, com base na redução de custos e despesas, na melhora de sua eficiência operacional e crescimento da base de ativos. Sobre Copel, mantemos uma visão construtiva para a companhia, que registra ganhos de eficiência em todos os segmentos de atuação, com melhora operacional e financeira”, diz Mario Mariante, analista chefe da Planner Investimentos.
Com o início do ciclo de afrouxamento monetário, algumas oportunidades pontuais começam a surgir. Chinchila destaca as ações ligadas à economia interna. “Observamos oportunidades relevantes em setores domésticos cíclicos, que tendem a se beneficiar do início do ciclo de queda de juros. Destacamos Localiza (RENT3), Lojas Renner (LREN3) e Marcopolo (POMO4), que apresentam melhora operacional e alavancagem controlada”.
Fundos de investimento
Para os fundos que apostaram em corte de 0,50 p.p., um corte menor, de 0,25 p.p. traz um impacto neutro a levemente negativo na cota no curto prazo, explica Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital. Isso porque, se o gestor comprou títulos longos esperando queda mais agressiva dos juros e o BC corta menos, o preço desses títulos não sobe tanto quanto o projetado. Mas isso não significa perda permanente. “Se o ciclo (de corte) continuar, o ganho vem ao longo do tempo, mas o timing da estratégia fica esticado”, afirma.
Ele destaca que os preços dos combustíveis tornam tudo mais sensível no cenário à frente. “Se gasolina e diesel continuarem subindo – e a perspectiva é real, dado que a Petrobras já acumula defasagem relevante frente ao mercado internacional –, o mercado pode reprecificar toda a trajetória de juros, impactando diretamente as cotas. Se o investidor acertou a direção e tem horizonte adequado, o retorno vem. Mas exige paciência e alinhamento de expectativa”, explica.
Para Guilherme Preciado, membro do time de gestão do Opportunity Total, a visão estrutural da casa permanece a mesma. “Já vínhamos posicionados em juros reais de longo prazo, por meio de NTN-Bs, onde entendemos que os níveis atuais de taxa seguem atrativos para horizontes mais extensos”, explica.
Já a abertura recente da curva de juros nominais — especialmente nos prazos mais curtos — criou oportunidade para iniciar as posições aplicadas nesses vértices, explica Preciado. “Em outras palavras, passamos a nos posicionar também em juros nominais curtos, justamente onde houve maior reprecificação.”
Fundos imobiliários
Os fundos imobiliários de papel ou de recebíveis em geral são uma junção de aplicações corrigidas pelo CDI e pelo IPCA, explica Alexandre Pletes, sócio e head de Renda Variável da Faz Capital. Nesse caso, o impacto do corte dos juros básicos vai depender do percentual de cada indexador nas carteiras. “A questão toda é equilíbrio da carteira”, afirma.
Ele lembra ainda que há outros fatores que devem influenciar esses fundos, como os que têm títulos corrigidos pelo IPCA com taxas prefixados boas por prazos mais longos que podem refletir o aumento da inflação por conta do aumento do petróleo pela guerra no Irã. Pletes observa que a curva de juros longa não cedeu, o que impede uma reprecificação dos fundos de tijolos.
Os fundos imobiliários de tijolo respondem em geral muito mais ao comportamento das NTN-Bs do que à Selic, observa João Arthur, diretor de investimentos da Suno Consultoria. ‘Se a Selic cai 0,25 ou 0,50 ponto não vai impactar tanto, pelo menos não na ótica do investidor fundamentalista”, diz.
Os únicos fundos imobiliários que terão rendimentos nominais menores, observa, serão os de recebíveis atrelados ao CDI. “Mas, novamente, será bem pouco, o CDI vai continuar em um patamar muito elevado e não cai muito rápido, então isso não altera drasticamente a visão de alocação para esse tipo de fundo”, explica.
Para ele, a trajetória da queda da Selic pode impactar os fundos imobiliários se for muito ampla e rápida, o que tenderia a beneficiar os fundos de tijolos em detrimento dos de recebíveis. “Mas teria de cair bastante e acho que estamos bem longe desse cenário”, diz Arthur.
A diferença entre um corte de 0,5 ponto ou 0,25 ponto na Selic é muito pequena e o impacto não é significativo para a rentabilidade dos fundos de papel indexados ao CDI, explica Marx Gonçalves, head de Fundos Listados do Research da XP Investimentos. Já nos fundos imobiliários em geral, um corte maior traria a perspectiva de reduções semelhantes nas reuniões subsequentes, o que teria efeito positivo para esses fundos. Mas, mesmo diante de uma redução menor, o efeito continua positivo. “Apenas talvez o investidor que poderia aumentar exposição a fundos imobiliários pode adiar um pouco mais a decisão”, avalia.
Para Gonçalves, o mais importante é a sinalização do Copom e, se o mercado entender que há quedas mais fortes da Selic adiante, o ambiente tende a favorecer principalmente os fundos de tijolos de modo geral.
Ações internacionais
O corte da Selic não deve influenciar significativamente o investimento em recibos de ações internacionais, os BDRs, negociados na B3, afirma João Arthur, diretor de investimentos da Suno Consultoria. “É uma classe muito ampla, então falamos até ETF de BDR, que são os mais diversos mercados acionários, renda fixa, global, EUA, Ásia, até grandes empresas de tecnologia”, diz.
Segundo ele, algum impacto sobre os BDRs poderia vir do câmbio, com desvalorização do real, “mas não acho que seja um impacto material”, afirma. Para Arthur, o aumento da popularidade do investimento internacional, seja em BDR, seja diretamente lá fora, vem de um desejo do investidor brasileiro de diversificar internacionalmente sua carteira, e mesmo a Selic muito alta por vários meses não reduziu esse interesse. “O que vai seguir influenciando o investimento em BDR e o investimento global é justamente esse apetite do investidor brasileiro internacionalizar parte de seus recursos”, conclui.
Quando o Federal Reserve, o banco central americano, mantém juros elevados ou sinaliza cautela, como ocorreu hoje, o mercado americano reprecifica ativos de risco e as ações caem, explica Maressa Campos, especialista em investimentos e relações internacionais. Em contrapartida, se o dólar sobe diante do real por conta dos juros altos lá e mais baixos aqui, os recibos de ações estrangeiras negociados na bolsa brasileira, os BDRs, podem até amortecer parte da queda da ação internacional, porque a valorização cambial compensa parcialmente o investidor brasileiro.
Para ela, o dólar se mantém como moeda forte, e se expor à moeda americana em ações via BDRs na bolsa brasileira pode ser visto como oportunidade para parte do capital disponível.
No Brasil, uma queda dos juros historicamente pode estimular o interesse dos brasileiros por investir no exterior, lembra Maressa. Mas, mesmo com um corte de 0,50 ponto porcentual ou 0,25 ponto, a renda fixa segue atrativa no país. Ela observa, porém, que a sinalização de uma possível redução maior de juros no Brasil faz crescer a percepção de que parte do patrimônio deve estar dolarizada. “Isso revela um cenário oportuno para o investidor buscar a diversificação internacional, proteção cambial e exposição a setores globais” diz.